Já não odeio despedidas.
A passagem de um relacionamento a outro - e esse estado atual - permite ver o quanto se cresce ao caminhar com e através de pessoas. O quanto se muda ao segurar e soltar vidas.
A primeira culpa, a culpa originária, não sei de onde veio. Diz-se que nascemos quebrados.
Não tenho mais fé no livro que conta dessa história. Mas, ainda assim, sou levada a acreditar que o coração reflete bem um esfacelamento que vêm desde sempre. Talvez dos filmes e livros que a gente escolhe gostar, das pessoas que resolvemos admirar e dessas tantas que se canta por ai.
Caso é que o meu era só mais um desses já-quebrados-corações. Algumas experimentações pra se provar vivo, quando mal começara a viver.
Não há culpa em amar. E coração é bicho com fibra suficiente pra bater forte mesmo quando se é deixado. Mesmo quando se deixa.
Cultivei um peito selvagem e colhi cores que não conhecia. Sabores tantos, irrefletidos. Por não querer pensar, não querer comedir.
Entrei numa valsa frenética, me forcei saber dançar diferentes desejos e pus a tapa uma cara que não calculei ter: cheguei a ser. Cara que fui familiarizando a mim mesma, me afeiçoando a seus detalhes e defendendo de moralismos nefastos.
Segui. Dentre as coisas que às vezes repito pra mim, tal qual Alice, esta.
Mas seguir tem seu lado não saudável: abocanho agora. Agora, que tantas culpas têm vindo a tona. Agora, que enxergo nas minhas raízes e nos meus traços pedaços pútridos das escolhas feitas. Da responsabilidade mínima não assumida com outra vida.
Há, sim, um sorriso pelo que há de novidade por ai. Novos ares pra tua casa, novo cheiro pra tua memória. Novo pulso pro peito. Mas num canto de mim sinto o amargo do rastro que deixei. Marcas escondidas nas brechas. Coisas demais.
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